Texto que escrevi para um trabalho de avaliação da disciplina "Filosofia da Cultura" em 2010.
O conceito de ser humano, diferenciado do conceito de animal
racional, científico ou biológico, pressupõe a vida humana em
sociedade. Tal pressuposto decorre do fato de que precisamos do outro
para que nossa existência seja de fato garantida. Precisamos do
outro psicologicamente para conhecer, na diferença, nossa própria
identidade. É necessário legitimar e reconhecer que o outro existe
e difere de nós, e a partir do outro firmarmos a nossa ipseidade,
nos reconhecendo em nossa singularidade.
Se assumirmos que a nossa existência é marcadamente filosófica, o
procedimento dialético, no sentido socrático do termo, nos
evidencia mais uma vez a necessidade do outro. Não há filosofia sem
diálogo, sem que nos confrontemos com as teses de outrem, a fim de
que nossas próprias teses sejam legitimadas. E as perguntas que
colocamos desde que somos crianças (perguntas como “o que é isso
ou aquilo”), não nos afastam da afirmativa de que nossa existência
não pode prescindir desse movimento filosófico. Até mesmo
biologicamente, se tomarmos o princípio evolucionista darwiniano, a
formação de comunidades mostra-se essencial para a construção do
ser humano tal como o reconhecemos hoje.
Por outro lado, não podemos dizer que somos animais “privilegiados"
fisicamente ou fisiologicamente, como ocorre com outras espécies.
Não conseguimos desenvolver grande velocidade, não possuímos
garras ou presas, não temos sentidos muito aguçados nem sequer
capacidades miméticas de defesa. Não nos resta, pois, outra
alternativa de sobrevivência senão usar a nossa inteligência para
modificar a natureza e torná-la habitável. A razão é nosso grande
e único mecanismo de defesa.
Devido a essas duas necessidades humanas, de convivência coletiva e
de transformação racional da natureza, produzimos uma cultura.
Nesse sentido podemos falar em um “homo culturalis”, em
uma existência humana intrinsecamente cultural. Sendo assim, a
reflexão filosófica sobre a cultura torna-se fundamental para uma
compreensão mais ampla de quem somos nós, de nossa própria
existência. Na percepção individual ou coletiva da identidade,
a cultura exerce um papel primordial para determinar
os padrões de conduta e as características
próprias de cada grupo humano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário