domingo, 29 de janeiro de 2012

Provocação da meia-noite

Eu tenho linguagem.

Em algum momento de meu processo de significação do mund(outro), sinto a inevitável necessidade de me significar.

Pergunto: O que sou eu? Identidade.

A ciência não responde.

Eu tenho linguagem.

Sou capaz de ter consciência da minha própria existência. Posso significá-la.

A consciência de que existo me coloca as seguintes perguntas:

Pra que eu existo?

O que vou fazer com a minha vida?

A ciência não responde.

O suicídio é uma hipótese entre outras.

Eu faço juízos.

Eu tenho vontade.

Eu tenho desejo.

Eu tenho apetite.

Eu sou linguagem e posso acabar com a minha vida.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O inevitável ocaso de Morpheus

Não, já não é mais possível dormir.
O sono sempre pertenceu, por direito irrevogável e inalienável, aos justos.
Os justos não existem mais. Nunca existiram. Mas só agora, depois de dispersada toda a nuvem de altruísmo fétido que sempre subjugou a mente humana, a impossibilidade lógica de pregar os olhos está clara.
A necessidade do descanso produzido pelo sono não passa de uma confortável ilusão. E ninguém suporta mais ouvir de cabeça baixa toda a extraordinária retórica da santíssima ilusão.
A realidade exige uma sociedade acordada e imóvel.
Admira-te com o óbvio! Luta contra a insuportavelmente dolorosa dor do óbvio. Rasteja, chora, grita! mas não percas tempo em tentar se mover.
Não há nada a fazer. Muitos menos dormir.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

envidia

Só de pensar...
Não. Permitam-me uma correção.
Pensar pode trazer equivocadamente a idéia de razão a um ato puramente emocional.
Só de imaginar...
Meus poros se abrem todos ao mesmo tempo. Eu fico epidermicamente vulnerável e sucumbo ao suor.
Apodera-se de mim um desconforto angustiante e começam os gritos. Ninguém pode ouvi-los, mas eles me são assustadoramente perturbadores.
Só de imaginar...
As minhas sobrancelhas são atraídas magneticamente pelo nariz, que por sua vez é fortemente atraído pela boca.
Meu rosto inteiro quer ser infinitesimal. Talvez para traduzir meu estado de espírito.
Uma mistura de tristeza, raiva e inveja. Ou talvez seja puramente inveja.
Só de imaginar...
A dolorosa contração facial é substituída pela raiva inconsequente.
Raiva de mim, de ti, de nós, dessa cidade, desse país, da humanidade, do existir.
É inevitavelmente pelo existir que tudo isso se passa.
A raiva me esquenta o corpo e a alma. Sinto a inquietante oscilação dos átomos.
O aumento da temperatura me traz uma vermelhidão cintilante.
Não. A temperatura não tem nada com isso.
A minha “tomatezação” é moral. Sinto-me envergonhado.
Como sou repugnantemente egoísta!
Tentando esconder a minha insignificância, cubro-me com um sorriso imbecil.
E do turbilhão de sensações inebriantes, surge calma e pacientemente, acompanhada de uns pedaços de esperança medíocres, a frase: “ai como eu queria...”

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Chronosfagia

Movimentos peristálticos influenciam o movimento de relógios de parede, adiam decisões, dispersam pensamentos, distraem, entretem e engordam.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Trans[bordo]

Eu não consigo caber em mim essa noite.
Como uma bolha de sabão que não suporta mais limitar o espaço ocupado pelo ar que a torna bolha.
Encontro-me cheio de mim mesmo e de ti.
Olho, mas não vejo. Vejo-te.
Leio, mas não entendo. Leio-te.
Escuto e não ouço. Ouço-te.
Penetraste em meus sentidos e os inundaste.
Toda a minha percepção passa por ti agora.
É como se todos os meus pensamentos agora fossem teus.
Tu já me habitavas, mas abriste os olhos esta noite.
E por mais que estejas em mim, eu não te possuo.
O rio não possui as águas que o inundam.

sábado, 11 de abril de 2009

Adeus aos fardos

Naquele momento meus poros exalavam medo e cerveja,
Numa combinação exuberante.
Eu tinha a impressão de que meus ossos saiam dos seus eixos em um vai-e-vem ritmado
De modo a oferecer-me maior flexibilidade.
Pingos desciam por minha perna e ousavam tocar o chão.
Eu sorria.
Talvez com uma ironia disfarçada de excesso de confiança.
As alfaias em meu coração intensificavam-se.
Não com uma freqüência frenética ou descompassada.
Mas com uma harmonia lírica e uma intensidade sonora invejável.
As artérias cadenciavam o samba-enredo de meu corpo.

Eu fazia samba e amor até mais tarde.

domingo, 24 de agosto de 2008

Dedos

Toques de carinho
Telefone móvel, cama de solteiro, filme de suspense
Sozinho
Saudade ou curiosidade?
Dedos
Calça, camisa e chinelo.
Perfume, chaves, portas
Dedos
Volante, cabeça, nariz
Cabelo recobrindo a dúvida e a insegurança
Abraço com todos os dedos.
Garrafa de cerveja, copo, espuma
Dedos
A língua e o sabor amargo do polegar
Plástico, cigarro e fogo
Fogo produzido pelos dedos
Os dedos também têm medo
E fogem...
E hesitam...
E se escondem.
Na volta pra casa os dedos já não possuem mais aquela inquietude
Já não falam mais como outrora
Apenas repousam sobre o volante
Dedos ébrios de arrependimento
Mínimos,
Anulares,
Médios,
Indicadores
E polegares...
Tão poderosos!
E Reduzidos a DEDOS!