quinta-feira, 18 de abril de 2013

Contribuição da Filosofia da cultura para a resposta (ou para a pergunta) "Quem somos nós?"

Texto que escrevi para um trabalho de avaliação da disciplina "Filosofia da Cultura" em 2010.

O conceito de ser humano, diferenciado do conceito de animal racional, científico ou biológico, pressupõe a vida humana em sociedade. Tal pressuposto decorre do fato de que precisamos do outro para que nossa existência seja de fato garantida. Precisamos do outro psicologicamente para conhecer, na diferença, nossa própria identidade. É necessário legitimar e reconhecer que o outro existe e difere de nós, e a partir do outro firmarmos a nossa ipseidade, nos reconhecendo em nossa singularidade.
Se assumirmos que a nossa existência é marcadamente filosófica, o procedimento dialético, no sentido socrático do termo, nos evidencia mais uma vez a necessidade do outro. Não há filosofia sem diálogo, sem que nos confrontemos com as teses de outrem, a fim de que nossas próprias teses sejam legitimadas. E as perguntas que colocamos desde que somos crianças (perguntas como “o que é isso ou aquilo”), não nos afastam da afirmativa de que nossa existência não pode prescindir desse movimento filosófico. Até mesmo biologicamente, se tomarmos o princípio evolucionista darwiniano, a formação de comunidades mostra-se essencial para a construção do ser humano tal como o reconhecemos hoje.
Por outro lado, não podemos dizer que somos animais “privilegiados" fisicamente ou fisiologicamente, como ocorre com outras espécies. Não conseguimos desenvolver grande velocidade, não possuímos garras ou presas, não temos sentidos muito aguçados nem sequer capacidades miméticas de defesa. Não nos resta, pois, outra alternativa de sobrevivência senão usar a nossa inteligência para modificar a natureza e torná-la habitável. A razão é nosso grande e único mecanismo de defesa.
Devido a essas duas necessidades humanas, de convivência coletiva e de transformação racional da natureza, produzimos uma cultura. Nesse sentido podemos falar em um “homo culturalis”, em uma existência humana intrinsecamente cultural. Sendo assim, a reflexão filosófica sobre a cultura torna-se fundamental para uma compreensão mais ampla de quem somos nós, de nossa própria existência. Na percepção individual ou coletiva da identidade, a cultura exerce um papel primordial para determinar os padrões de conduta e as características próprias de cada grupo humano.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Provocação da meia-noite

Eu tenho linguagem.

Em algum momento de meu processo de significação do mund(outro), sinto a inevitável necessidade de me significar.

Pergunto: O que sou eu? Identidade.

A ciência não responde.

Eu tenho linguagem.

Sou capaz de ter consciência da minha própria existência. Posso significá-la.

A consciência de que existo me coloca as seguintes perguntas:

Pra que eu existo?

O que vou fazer com a minha vida?

A ciência não responde.

O suicídio é uma hipótese entre outras.

Eu faço juízos.

Eu tenho vontade.

Eu tenho desejo.

Eu tenho apetite.

Eu sou linguagem e posso acabar com a minha vida.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O inevitável ocaso de Morpheus

Não, já não é mais possível dormir.
O sono sempre pertenceu, por direito irrevogável e inalienável, aos justos.
Os justos não existem mais. Nunca existiram. Mas só agora, depois de dispersada toda a nuvem de altruísmo fétido que sempre subjugou a mente humana, a impossibilidade lógica de pregar os olhos está clara.
A necessidade do descanso produzido pelo sono não passa de uma confortável ilusão. E ninguém suporta mais ouvir de cabeça baixa toda a extraordinária retórica da santíssima ilusão.
A realidade exige uma sociedade acordada e imóvel.
Admira-te com o óbvio! Luta contra a insuportavelmente dolorosa dor do óbvio. Rasteja, chora, grita! mas não percas tempo em tentar se mover.
Não há nada a fazer. Muitos menos dormir.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

envidia

Só de pensar...
Não. Permitam-me uma correção.
Pensar pode trazer equivocadamente a idéia de razão a um ato puramente emocional.
Só de imaginar...
Meus poros se abrem todos ao mesmo tempo. Eu fico epidermicamente vulnerável e sucumbo ao suor.
Apodera-se de mim um desconforto angustiante e começam os gritos. Ninguém pode ouvi-los, mas eles me são assustadoramente perturbadores.
Só de imaginar...
As minhas sobrancelhas são atraídas magneticamente pelo nariz, que por sua vez é fortemente atraído pela boca.
Meu rosto inteiro quer ser infinitesimal. Talvez para traduzir meu estado de espírito.
Uma mistura de tristeza, raiva e inveja. Ou talvez seja puramente inveja.
Só de imaginar...
A dolorosa contração facial é substituída pela raiva inconsequente.
Raiva de mim, de ti, de nós, dessa cidade, desse país, da humanidade, do existir.
É inevitavelmente pelo existir que tudo isso se passa.
A raiva me esquenta o corpo e a alma. Sinto a inquietante oscilação dos átomos.
O aumento da temperatura me traz uma vermelhidão cintilante.
Não. A temperatura não tem nada com isso.
A minha “tomatezação” é moral. Sinto-me envergonhado.
Como sou repugnantemente egoísta!
Tentando esconder a minha insignificância, cubro-me com um sorriso imbecil.
E do turbilhão de sensações inebriantes, surge calma e pacientemente, acompanhada de uns pedaços de esperança medíocres, a frase: “ai como eu queria...”

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Chronosfagia

Movimentos peristálticos influenciam o movimento de relógios de parede, adiam decisões, dispersam pensamentos, distraem, entretem e engordam.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Trans[bordo]

Eu não consigo caber em mim essa noite.
Como uma bolha de sabão que não suporta mais limitar o espaço ocupado pelo ar que a torna bolha.
Encontro-me cheio de mim mesmo e de ti.
Olho, mas não vejo. Vejo-te.
Leio, mas não entendo. Leio-te.
Escuto e não ouço. Ouço-te.
Penetraste em meus sentidos e os inundaste.
Toda a minha percepção passa por ti agora.
É como se todos os meus pensamentos agora fossem teus.
Tu já me habitavas, mas abriste os olhos esta noite.
E por mais que estejas em mim, eu não te possuo.
O rio não possui as águas que o inundam.

sábado, 11 de abril de 2009

Adeus aos fardos

Naquele momento meus poros exalavam medo e cerveja,
Numa combinação exuberante.
Eu tinha a impressão de que meus ossos saiam dos seus eixos em um vai-e-vem ritmado
De modo a oferecer-me maior flexibilidade.
Pingos desciam por minha perna e ousavam tocar o chão.
Eu sorria.
Talvez com uma ironia disfarçada de excesso de confiança.
As alfaias em meu coração intensificavam-se.
Não com uma freqüência frenética ou descompassada.
Mas com uma harmonia lírica e uma intensidade sonora invejável.
As artérias cadenciavam o samba-enredo de meu corpo.

Eu fazia samba e amor até mais tarde.